Artigo: os gays e as tragédias da futilidade

 

Casal gay no park, em Nova york — Fotografia de Stock #52491785

O Brasil continua há  décadas como o país que tem mais assassinatos de homossexuais no mundo, até hoje. O recrudescimento do nazismo e suas variantes com os skinheads; o machismo que tanto combatemos desde os anos ’60, mas que revelou ser um inimigo maior; o enrustimento dos gays que massacram os que saem do armário, ao invés de aplaudirem. A falta de solidariedade entre os homossexuais, notória. Etc. E, tristemente, a futilidade. A nossa tão conhecida e inegável futilidade gay é uma de nossas tragédias. Quer confirmar o que digo, dê uma olha nos perfis de gays nas redes sociais e vejam o que ele publicam.É óbvio que você encontrará alguns perfis de  gays  com conciência crítica, mas é minoria. A mairoia tende a postar e compartilhar futilidades, vulgaridades....

Dois jovens posar para uma foto durante o festival anual de orgulho gay e lésbico de barcelona — Fotografia de Stock #18760679

 A futilidade impede a compreensão de um todo e só nos deixa ver um fragmento de algo, o que é meio caminho andado para o preconceito. Impede que tenhamos a visão dos nossos reais inimigos e padroniza os homossexuais, tirando a excelência de sermos únicos, donos absolutos da nossa singularidade e individualidade, da nossa criatividade. Através dela, da futilidade, viramos todos clones uns dos outros e nada acrescentamos de novo em nossas vidas e em nosso mundo. Ela impede, inclusive, a obtenção de direitos e cidadania, por isso é uma arma tão poderosa e destruidora, tão usada pelos poderosos que querem que tudo continue na mesma, por que isso é muito conveniente a eles e ao país. O mais grave de tudo é que acabamos comprando isso como se fosse algo “natural”, sem perceber o que estamos fazendo e o quanto saímos perdendo nessa. Senão vejamos:

Sempre gostei muito de Marlene Dietrich. Um amigo meu falava: “isso é coisa de gay...”. Mas, no meu caso, não me interessava a imagem de glamour que ela carregava também e que a maioria dos gays só consegue enxergar isso nela: a atriz que nunca envelhecia, os seus vestidos de diamantes e seus casacos de pena de cisne cuja cauda tinha mais de quatro metros e etc. Não, o que eu via e vejo em Dietrich é a mulher que lutou contra o nazismo, arriscou mais de uma vez sua vida para retirar da Alemanha amigos e artistas judeus, recusou-se a ser a estrela maior do cinema nazista dando uma bela banana para Hitler, esfregou na cara dos americanos a verdade sobre o soberbo belicismo dos seus governantes – e do seu povo...-, fundou inúmeros grupos e associações contra guerras, carregou naturalmente a sua lesbiandade sem dar satisfações para ninguém e indo nas festas de mãos dadas com suas amantes, que beijava publicamente na boca. Quando? Desde os anos ’30 e até morrer. Eram essas coisas que eu admirava nela, mas que os gays que a glorificam nem fazem idéia. Com Marilyn Monroe é mais ou menos a mesma coisa: gostam dela e da sua imagem por que ela era linda e gostosa, “dava pra um monte de homens” e queriam estar no lugar dela... dando... Mas a futilidade impede-os de ver que Marilyn foi também uma grande atriz e comediante, uma mulher carregada de poesia tristemente subjulgada e morta num mundo de homens, morta pelos homens que amou intensamente e que não a amaram, apenas obcecados pelo seu corpo perfeito, não viam nela uma mulher e uma artista e sim, uma vagina... Uma vagina a ser usada. Não conseguem ver isso.

Cada vez que damos a mão à futilidade, deixamos de lado a compreensão dos nossos direitos. E abdicamos da luta por eles. Que estranha época é a nossa onde um corpo vale mais que uma personalidade

Quarenta e nove por cento dos assuntos retratados em sites gays referem-se a sexo, usado como chamariz para usuários e assinantes. Em linguagem mais clara, vídeos de trepadas, masturbação e homens “sarados” pelados e de pau duro. Não há questionamentos quanto à banalização do sexo ou estudos sérios sobre. Há, isto sim, a defesa disfarçada da ditadura da estética, outra armadilha em que nós, gays, caímos de cabeça. O próprio termo “sarado” já é carregado de estigma, passa a idéia de que corpos não malhados são doentes... Qual é o antônimo de sarado?

Outros 49% são futilidades: baladas, boates, moda, beleza, perfumes,celebridades selfies tentando parecer o que não são na realidade... Sobra dois por cento para um ou outro assunto mais sério, alguma denúncia ou análise mais profunda de algo. Aí, se você se torna amigo de alguém lá de dentro ele vai te argumentar “que precisa vender”, “que o site precisa sobreviver...”, “que estão dando o que o público procura, não é culpa deles se o mundo é assim...” " e que o público  gay gosta dessas coisas Pois é, é verdade. E ao falarem isso eles estão justamente concordando com tudo o que eu estou falando aqui e corroborando minhas teses. Há  11 anos , eu entrevistei nada menos que 250 homossexuais masculinos, de uma forma livre e nada padronizada, aos quais eu fazia uma única pergunta: O que você lê na G Magazine?  Pois bem, 227 me responderam que “não lêem a G Magazine, compram para ver os bofes...” Os poucos 23 restantes me falaram que liam os artigos, sempre muito elogiados, do João Silvério Trevisan, um e outro falou na página da Nanny People, um citou a articulista Yáskara, outros o David Brasil... A mesma editora da G Magazine, a Fractal Edições, lançou depois  a G News, uma revista só com artigos e reportagens sobre homossexualidade, cultura gay etc. , sem homens nus. Não passou do segundo número.Por que ? Porque não  havia  pau, bunda, homens "sarados"....

            iro lugar acho que ninguém pode falar em nome dos gays como um todo. Chico Buarque é um dos homens mais inteligentes, geniais deste país e sei de muitos gays que deitariam na poça para que o Chico atravessasse por cima. Dono de uma obra brilhante, dono dos mais belos versos da Música Popular Brasileira e da mais perfeita coerência artística até hoje vista. De minha parte eu preferiria mil vezes trepar com o Chico – mas sei que ele não é gay... snif – do que com esse tal editor, com seu cabelo pastinha, sua boca fina e cruel de bicha má e suas roupinhas fashion. Agora, ao proferir tal absurdo ele realmente nos mostra a quantas anda a cabeça de boa parte dos gays de hoje... o que me dá tesão, senhor editor, é a inteligência e sensibilidade e nunca a juventude ou a aparência de alguém.

            Tudo isso me sufoca. É como um nó na garganta. Sinto que somos roubados ao sermos impedidos de mostrar um outro lado, que há gays que pensam diferente, que divergem. Militantes gays adoram a palavra “diversidade”, mas para eles a tal diversidade é a que se refere apenas à orientação sexual, você não pode ser “diverso” em suas opiniões e forma de pensar ou agir, ou estará definitivamente fora do jogo. Também recentemente, fui fazer análise com um famoso psicólogo gay. Já na sua apertadíssima sala de espera colocou um grande quadro com a foto de um malhado jovem pelado, de bruços, para confirmar que ele, sim, estava absolutamente dentro do contexto homossexual atual, não é isso que os gays querem ou procuram?  Ao pendurar tal quadro esse psicólogo imagina estar criando uma identidade com seus pacientes, ou seja, coloca de novo todos no mesmo tacho, como se ser gay – e só isso - definisse a pessoa completamente.  E, novamente, temos que ter o comportamento padrão. Ou nenhuma psicoterapia nos salvará e estaremos condenados à fogueira em praça pública.          

 E você que está lendo  esse artigo pode até falar que “os heterossexuais também são fúteis e que os gays sofrem as mesmas influências”.E você não deixa de ter razão. Mas tem uma diferencinha aí: Os e as heterossexuais são cidadãos. Têm todos os direitos garantidos por lei.  Se alguém encrespar com eles, podem se queixar com o bispo, com o delegado, com o juiz e nunca vão ouvir piadinhas nem conselhos para “deixar isso pra lá...”. Não andam pelas ruas correndo o risco de nunca mais voltarem para suas casas apenas devido à sua orientação sexual. Não são considerados “seres inferiores” ou “lixo”. A futilidade para eles também é muito cruel e violentadora. Mas não tira deles os direitos nem os impede de serem cidadãos. É bom a gente refletir mais sobre isso.

 

Ricardo Rocha Aguieiras

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