IMPERDÍVEL: entrevista de Roger-Pol Droit, o atípico filósofo francês que renega os intelectuais


P. Parece que as pessoas procuram cada vez mais respostas nos filósofos em uma espécie de busca da felicidade ou de um sentido da existência.

R. Há uma espécie de imperativo de ser feliz, em todos os lugares, o tempo todo. Aconselham-nos isso da manhã à noite. É algo suspeito: quando lhe repetem isso tantas vezes é que algo não funciona. Sempre me surpreendeu essa maneira dos norte-americanos de dizer enjoy. Por que, se eu já faço isso sozinho? Não necessito que me digam que aproveite minha comida, está tudo bem! Na obsessão atual pela felicidade há um sintoma do desejo de eliminar o negativo. Mas não há vida sem aspectos negativos e positivos. A ideia de uma felicidade sustentada, perfeita, sem estresse, sem preocupações, sem angústias, não me parece muito humana, nem interessante. É algo com o que se sonha em uma época que é, efetivamente, angustiada, fragmentada. É preciso ser feliz em casa, com a companheira, no trabalho, na cama, nas férias... Esse imperativo permanente me parece um imperativo de controle social.

Roger-Pol Droit apoia o braço na mesa; segura o rosto com três dedos. Manifesta que a tecnologia não é a salvação, como preconizam alguns, mas tampouco uma antecipação do apocalipse. Considera que o ser humano é ignorante, incrédulo e que tem algo de demente. “O que quero dizer é que a potência técnica cresce enquanto a potência moral não se move. Há muitas guerras e catástrofes que são desencadeadas por formas de injustiça, de loucura”. Sustenta que na França muitas coisas mudaram depois do atentado contra o semanário satírico Charlie Hebdo. “Há uma tomada de consciência de que há uma guerra em andamento que não é entre Estados; não é entre militares e exércitos.” E lança flechas contra seus colegas filósofos, critica a apatia deles. “Quando tinha 20 anos era um grande admirador dos grandes pensadores; ao longo dos anos conheci muitos deles, os vi de perto e não pensei exatamente o mesmo. Penso que há uma espécie de necessidade de admirar; na vida intelectual em geral, mas também na vida social.”

P. Em 101 Experiências de Filosofia Cotidiana o senhor recorre a pontos de partida insólitos para desencadear experiências filosóficas. Isso é uma extravagância?

R. Por que extravagante? Não, não acho. É algo inspirado nos exercícios espirituais da antiguidade na linha de Hellzapoppin' [filme de comédia norte-americano em tom burlesco dos anos quarenta, intitulado Pandemônio no Brasil]. Tento suscitar assombro, provocar um clique.

P. Há uma vontade de provocação?

R. Às vezes sim, às vezes não. Não obrigatoriamente. Teve uma que suscitou muitos comentários, aquela de beber e urinar ao mesmo tempo. Isso é filosofia? É claro que não, não estou louco. Se forem apresentadas perguntas abstratas e teóricas, todo mundo vai abrir a caixa de aspirinas e vai dizer: é uma aula de filosofia, não me interessa. Mas se propusermos coisas assombrosas, insólitas, que fazem com que alguém reflita sobre uma questão, não é filosofia propriamente dita, mas é o início de um caminho rumo à filosofia.
Publicada no El Pais Brasil

 

Enquete

O ministro da Justiça disse que os comandantes de Batalhões da PM do Rio são cúmplices do crime organizado.Você

Concorda? 565 95%
Discorda? 28 5%

Total de votos: 593

Crie um site com

  • Totalmente GRÁTIS
  • Design profissional
  • Criação super fácil

Este site foi criado com Webnode. Crie o seu de graça agora!