A obra satírica Os Bruzundangas tem como epígrafe uma frase de Jean de Joinville ? tirada de sua História de São Luís: Hais tous maux où qu?ils soient, très doux Fils (Odeie todos os males onde eles estiverem, dulcíssimo filho). Esse trechinho de Joinville nos dá bem a visão de Lima Barreto de como deve ser a postura dos indivíduos frente aos males sociais. O escritor carioca sempre deixou clara sua aversão ao nacionalismo, o qual levaria pessoas a se ufanarem de tudo quanto é nacional, tornando-as acríticas e, no fim das contas, resignadas em relação às iniquidades que as cercam. 

No prefácio do livro, escrito em Todos os Santos (pequeno bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro entre os bairros do Méier, Cachambi e Engenho de Dentro) em 2 de setembro de 1917, Lima Barreto cita a Arte de furtar. Declara que assim como os maiores ladrões são os que têm por ofício livrar-nos de ladrões menores, a descrição dos terríveis males que assolam a Bruzundanga nos pode livrar dos males menores que assolam o Brasil. É explicitado assim o objetivo da obra: não apenas fazer rir, mas também alertar sobre os problemas do Brasil. 

Há, de início, um capítulo especial sobre a literatura da Bruzundanga, dominada pelos poetas ?samoiedas?, extremamente formais, ligados a sonoridade das palavras e presos a imitação estrangeira (vai aí uma crítica aos poetas simbolistas europeizantes). Esta parte tem como epígrafe um trecho da carta de São Paulo aos Gálatas: ?Vazios estais de Cristo, vós que vos justificais pela lei: da graça tendes caído?. 

No capítulo I (Um grande financeiro), Felixhimino Ben Karpatoso é aclamado pela sociedade apesar do caos que promove nas finanças bruzundanguenses, e se torna Ministro da Economia. 

É feita uma crítica aos bacharéis ignorantes e a sociedade que os endeusa, no capítulo II (A nobreza da Bruzundanga). 

No terceiro, chamado A outra nobreza da Bruzundanga, a crítica recai sobre os novos ricos que inventam títulos de nobreza para si. 

O capítulo IV ? A política e os políticos da Bruzundanga ? volta-se contra politiqueiros que, de positivistas, passam a católicos, e modificam suas crenças continuamente em busca de votos, prestígio e dinheiro. 

Em As riquezas da Bruzundanga (V), ataca-se o ufanismo de se mostrar o país sempre como o de maiores riquezas naturais sem nada fazer para melhorar a sociedade. 

O ensino da Bruzundanga (VI) critica os artifícios para concessão de títulos acadêmicos, as instituições religiosas de ensino e as exigências desnecessárias na formação de determinados profissionais. 

No capítulo VII (A diplomacia da Bruzundanga), investe-se contra a valorização exagerada de tudo o que é estrangeiro. 

Há críticas aos autoritarismos escondidos sob o manto da legalidade, no capítulo VIII (A constituição), 

O capítulo intitulado Um mandachuva (IX) mostra como somente os mais medíocres chegam a ser chefes políticos. O pior deles chega até a presidente (lá chamado ?mandachuva?). 

Em Força armada (X), mostra-se que o Exército é formado por generais sem tropas e a Marinha, constituída por almirantes com ?navios paralíticos? que só servem como ornamento. As Forças Armadas só existem para saciar a vaidade dos militares. 

Um ministro (XI) contém críticas a política agrícola que, caracterizada pelo latifúndio, explora o trabalhador ao máximo. 

Em Os heróis (XII), o alvo é hábito de se transformar em ídolos nacionais pessoas que pouco ou nada fizeram de heroico. Há alusões prováveis a Anita Garibaldi e Floriano Peixoto. 

Em A sociedade (XIII), é criticada a sociedade medíocre cujos membros vivem a cavar dinheiro por meio de favores governamentais. 

O décimo quarto capítulo contém uma das críticas mais ferozes e explícitas de todo o livro. Este trecho chamado As eleições narra a tentativa de um eleitor que queria votar num homem que estava com dificuldades financeiras, somente para ajudar o candidato. Ao fim, o eleitor é surrado e esfaqueado. A eleição é fraudada. Lima escreve: ?...no ponto de vista eleitoral, a Bruzundanga nada tem que invejar da nossa cara pátria?. 

Em Uma consulta médica (XV), esculhambam-se os ?doutores? que tem prestígio social, mas não curam seus pacientes. 

É mostrado como o povo costuma exaltar aqueles que não conhece, no décimo sexto capítulo, intitulado Organização do entusiasmo. 

Em Ensino prático (XVII), é atacada a educação ?prática? e o estilo de vida norte-americano. 

A religião (XVIII) diz que ? contraditoriamente ?, mesmo a religião católica sendo dominante, quase não há frades e monjas que não sejam estrangeiros. 

Q.E.D. (XIX) mostra que a utilidade dos secretários de ministros é apenas bajulá-los e aturar seus filhos desaforados. 

Uma província (XX) descreve Kaphet, província da Bruzundanga que julga ter o melhor ensino e a melhor arte, mas não produz coisa alguma de minimamente original. 

O capítulo XXI (Pancome, as suas idéias e o amanuense) narra o fato de o ministro de Estrangeiros Visconde de Pancome, por detestar feios e javaneses (equivalentes aos nossos mulatos), veio a contratar ? sem concurso ? um escrivão que não sabia redigir uma carta, mas que sorria de forma bela. 

A parte XXII, denominada Notas soltas, são, ao que tudo indica, estudos ou esboços de textos a serem desenvolvidos. Nelas há uma interessante crítica à Academia de Letras, que elege quem nada escreveu de relevante, mas que tem prestígio social. Em um trecho intitulado Sobre o teatro denuncia-se a falta de originalidade e a vulgaridade de espetáculos. Existem ainda mais alguns esboços de críticas aos jornais, aos falsos literatos, à administração pública e à indústria exploradora. 

Há também neste volume uma parte chamada Outras histórias dos bruzundangas que contém: As letras na Bruzundanga, A arte, Lei de promoções, Rejuvenescimento, No salão da marquesa e Outras notícias. 

As letras na Bruzundanga tem uma epígrafe bem pomposa tirada do discurso de Coelho Neto na inauguração da piscina do Fluminense F.C. A historinha narrada nesta parte é a de um poeta que, vergonhosamente, aceitou fazer um discurso para a inauguração de um tanque de lavar cavalos: explícito e corajoso ataque de Lima Barreto a Coelho Neto. 

Lei de promoções é um avacalhação do cientificismo positivista, típico dos militares brasileiros da época. Descreve-se uma fórmula científica para as promoções: os aspirantes a determinada patente ingerem certa mistura, se não morrerem devem ter as fezes examinadas em papel tornesol, o qual, se ficar avermelhado, autorizaria a promoção. 

Rejuvenescimento é a descrição de outra fórmula de promoção dos militares. Desta vez o objetivo é fazer com que haja generais jovens. Uma alternativa seria a maquiagem, alternativa ruim porque só daria aparência de jovialidade. A outra opção seria dar logo ao novato o posto de general (com soldo de tenente) e depois rebaixá-lo a tenente (com soldo de general). 

No salão da marquesa descreve círculos literários sem nada de realmente artístico ou cultural, mas apenas com exaltação de futilidades. 

Outras notícias é a descrição de como um papagaio foi nomeado arauto d?armas da Secretaria de Estado de Mesuras e Salamaleques da República dos Estados Unidos da Bruzundanga. 

Esse livro é uma obra satírica engraçadíssima e bastante crítica até hoje. Pode ser vista como um romance ou lida como uma coletânea de contos acerca dum mesmo universo ficcional: o país imaginário chamado Bruzundanga, claramente baseado no nosso Brasil. 

A edição lançada pela Ática (São Paulo, SP, Brasil) na Série Bom Livro traz, à guisa de introdução, um estudo do professor da Universidade de São Paulo Valentin Facioli chamado ?República dos bruzundangas: por que não me ufano de meu país?. Tem, de quebra, um posfácio do professor Carlos Faraco sobre vida e obra do autor Afonso Henriques de Lima Barreto. Muito interessantes as observações desses estudiosos, valem a pena ser lidas. Porém o texto de Lima é plenamente apreensível pelo leitor de hoje, mesmo sem prefácios ou pés de página. Ainda na atualidade podemos dizer (talvez lamentavelmente): a Bruzundanga é aqui.